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Meu amor

Peço desculpas.
Assim.
Pelos últimos anos.
Pelos últimos dias.

Peço desculpas.
Abandono o sonho.
Despeço me do futuro.
Lhe perco para a vida.

Peço desculpas.
Pois,
Embora seja tarde,
Espero que volte.

Que não demore 20 anos.

Novidades

No silêncio de minhas noites. A ausência do som de uma televisão ligada deixou de ser incômodo e passou a ser dia a dia. A casa volta a ser o que lhe é de origem, o refúgio para o descanso do corpo e da mente.

Acordo pelas manhãs frescas desse verão com a cortina semi aberta. Levanto e vou ao café. Eu o preparo. Ao finalizar, lavo a louça. Escovo os dentes para sair de casa e antes de dormir. Limpo o chão periodicamente. Aos sábados, é a vez da casa inteira.

As meninas, nossas felinas, passam a noite pulando felizes pelos cômodos que lhe são permitido transitar.  Estão felizes com o silêncio. Os vizinhos quase não fazem barulho. E, de onde estou, não escuto aparelhos eletrônicos.

Estamos felizes assim. Com café, livros, um sofá aconchegante e sem novela.

Breja, Briga e... outro B para você


Estávamos jogando sinuca. Tudo sempre começa assim, jogando sinuca, um amigo e eu. Neste dia, o amigo em questão era conhecido por "o Grande". Bem, ele não era tão grande assim como as pessoas comentam. Aliás era bem mirrado, um metro e setenta no máximo, mas quando entrava numa briga... Se tornava. Não estávamos afim de confusão. Os punhos ainda não tinham voltado ao normal desde a última incursão noturna, mas não vem ao caso. O caso mesmo era que estávamos jogando sinuca.

- "Sabe, aqui tá massa, mas tá faltando alguma coisa."

- "O que, Grandão, mais briga?!" Respondi de imediato.

- "Não, não. Tá faltando mulher, Cara. Vá me arranjar uma que eu compro as cervejas da noite."

Como era de costume, meus companheiros de noites sempre me compravam com alguma coisa. Em geral, Jack Daniels, mas Grandão estava pobre naquela ocasião.

Dei a volta no bar, olhei para algumas mesas. Achei o de sempre: playbas, algumas putas e, enfim, algo que o valha. Duas peças da mais fina categoria. Não eram muito bonitas, mas ainda tínhamos abastecimento de cerveja. Depois de algumas dez, talvez pudessem ficar melhorzinhas. Talvez.

O desafio estava na minha frente, então fui atrás para ter o que beber mais pra frente. Cheguei perto a ponto de vez uma jogada. As meninas jogavam relativamente bem, mas não estavam lá para isso. A mesa estava uma droga. Todas as bolas no canto e nenhuma tacada interessante poderia mudar alguma coisa, só se elas fossem muito estrábicas para conseguir, ou ainda se tacasse na sete para acertar de canto a cinco, mas, vamos combinar que nesta situação raciocinar como bons jogadores estava fora de questão.

A jogada se fez como imaginado, a morena acertou a cinco e a fez rolar a mesa inteira sem triscar em nada e nem acertar alguma coisa. Eu, como uma pessoa que estava afim de puxar uma conversa, só pude soltar um sorriso. A outra morena riu, o que me deu brecha para poder iniciar o assunto.

- "O que foi?"

- "Oi? Estava vendo vocês aí jogarem, e tal, e pensei: tem duas aqui, dois ali do lado, que tal montarmos um joguinho de par?". Investi.

A morena da tacada veio arisca.

- "Oche, quem tu pensa que tu é pra pensar que a gente vai?"

- "Mulher, deixa eu te explicar duas coisas. Você tem dinheiro?"

- "Não muito."

- "Então, nós tem seiscentas pilas para gastar hoje. Não que isso seja uma oferta por nossa intenção futura com vocês. Segunda coisa, duas andorinhas não faz verão, mas quatro faz filhote. Vem logo pra nossa mesa." De imediato elas toparam. Não custava nada. Aliás, custaria umas boas risadas e, quem sabe, algum futuro.

Voltei com as meninas para a mesa e o Grande me olhou com uma cara de “Já? Nem comprei as birita!”.  O jogo de par se deu da seguinte forma: a morena 01, se chama Marta, e a 02 era Dayse. Assim em inglês, bem cara de puta. Colei na Marta pela estupidez, mesmo porque alguém com nome Dayse só poderia ser muito fácil mesmo. O Grande deu um outro nome, Gustavo, nome de playba. Piscou pra mim para eu confirmar. Eu me chamei de Jucelino, tem mais cara de peão mesmo.

Na primeira partida, Gustavo não deixou barato e limpou metade da mesa em duas tacadas. Uma proeza, já que ele era mais estrábico que burro de cabresto. Fui deixando ele enrolar, afinal, quem iria pagar a conta mesmo? Quando estávamos colocando a ficha para a segunda partida, percebi de canto de olho que um playbazinho, muito do enjoado, começou a encarar o Grande. Claro que ele não notou. Então fiquei quieto só pra ver no que ia dar.

Com as bolas na mesa, Dayse ia dar a primeira tacada quando um dos caras veio na grosseria.

- "Olá, belas pernas. A que horas elas abrem?"

- "Nem nas suas bronhas mais insanas."

O Grande ouviu e deu uma risadinha.  O cara virou pra ele e disse:

- "Tá rindo de que?"

Segurou mais forte o taco e em seguida começou:

- "Esse é meu curral, não mexa no meu gado."

Não havia muito espaço para levar o taco na cara do playba. Então o cara investiu primeiro e o empurrou. No desequilíbrio, o Grande percebeu que abriu um espaço e acertou o taco na cara dele, o quebrando em dois. Eu ainda estava rindo, quando o amigo do playba veio pra cima. Essas coisas são difíceis de contar, mas em um único lance eu o agarrei pela gola e o joguei em cima da mesa. Só para não dizer que sou uma pessoa pouco empolgada, ao fundo Motorhead com Killed by Death veio para aumentar a força dos socos que dei na cara dele. Mas antes disso, fiz a pergunta padrão:

- "Qual o seu nome, filha da puta?"

O cara olhou com espanto e logo retrucou: "Que?!"

- "Resposta errada". Mais um soco. "QUAL. É. O. SEU. NO-ME, FILHADAPU-TA?"

Com o susto, respondeu: "Henrique, por quê?!"

- "Pra criar intimidade."

Um soco no queixo, outro na orelha, mais uns três na boca, no olho e para dar aquela finalizada (é importante fazer essas coisas com calma), subi mais um pouco e meu joelho em seu nariz. Pronto, tava feito. Aí o esquema que já estávamos habituados: segurança vem, nos joga pra fora, a ambulância chega pra buscar os infelizes, a polícia passa pela gente sem nem notar que poderíamos ter algo a ver com isso e duas garotas, as mesmas (lógico), olhando meio estasiadas com a situação.

Dayse olhou pro Grande e perguntou: "Cês tão bem?". Um "Ah, te fuder!" sonoro foi a resposta. 
- "Calma, calma. Amigo, amigo". Parecia preocupada, mas era assanhamento mesmo. Pedi desculpa, enquanto Gustavo-fake-Grande xingava a mãe, o pai, a Xuxa e Deus. Uma conversa amistosa se iniciou. Demos uma volta no quarteirão até o carro delas, que estava um tanto longe. Deus, como desejei que o carro estivesse mais perto. Enfim. Marta olhou pra mim e disse:

- "Sou enfermeira. Se quiser, vamos pra minha casa e eu lhe ajudo com curativos". 

- "Que isso mulher! Enfermeira só me lembra injeção... Ah, entendi!". Não me culpe, nessas horas a gente nem tem ideia do que as pessoas querem...

Não vi mais o Grande por perto. Deve ter ido embora com Dayse, afinal ela tem nome de flor. Deve cheirar alguma coisa. Acordei umas 13h, com uma ressaca infernal. Achei minha cueca, calça e coturno e antes de que Marta pudesse ver alguma coisa, eu já estava descendo o prédio. Andei por três quadras até o meu telefone tocar.

- "Fala fio! Só o oro?", falei. Do outro lado da linha, o Grande. 

- "Se é".

- "Mais uma dessas e perco meus escrúpulos."

- "Só se for virar letra de música."

16:45


Este é o início de uma lapso temporal em seu dia. Comece a notar, todos os dias quando o relógio do computador alcançar 16:45 pode ter certeza que amanhã chega, mas 18h não. É o lazy down da rotina. Certeza que quando o fim do mundo chegar, será às 16h45. O sol está deixando de ser forte para ficar mais fraco. Em tempos de chuva é quando o temporal é mais forte. Faz o teste! O céu escure e parece que 19h chegou, mas é só mais uma facepalm que o tempo dá em todo mundo.


Se está no trabalho, nada acontece. Nem o telefone toca. Toda a força criativa escorre de você, para a cadeira e vai ao chão como azeite caindo do pão (a rima foi involuntária). O sono, enlouquecedor, lhe mostra toda a força de vontade que você esqueceu em algum lugar, menos aqui. As 345 coisas que você estava fazendo passam a não ter tanta urgência assim. E, qualquer link, digo QUALQUER link passa a te içar como um tucunaré que está pronto para a rede-limpeza-chapa-estômago. Finalmente as 18h chegam, os posts no facebook e twitter vão diminuindo, os posts sobre o trânsito vão crescendo, mas você só sai às 19h. Então, todas as coisas deixadas para depois passam a ser feitas na velocidade da luz. 15 emails respostas em menos de cinco minutos. O teclado passa a ter sonoridade de um piano em fúria, dada a situação das teclas já demasiadamente amolecidas pelos toques frenéticos do rush time. Na maioria das vezes não dá tempo, então você acaba esticando até às 20h só para ter certeza que tudo ficará em ordem para o dia seguinte. E seguinte. E seguinte.


Mas você não trabalha. Está em casa. Puxou a poltrona para perto da estante só para colocar o pé em cima do braço do sofá. Mais conforto para a fase 5, nível três. Malditos helicópteros e mini-kits im-pos-sí-veis de encontrar. Já passou a hora do almoço, mas você preferiu a novela. Ainda não é jantar, mas você não lanchou. Então, o pacote de snakes fica de um lado e o brut do outro, só para relaxar. Mas são 16:45, quando todo o dia que quase está acabando passa a fazer algum sentido. O que eu fiz do meu dia, porque ele está QUASE no fim? Por que eu não saí de casa? Por que não comi cachorro-quente na igrejinha? E o almoço com azamiga, ficou para depois? POR QUE?!!?!!? Facepalm. São 01h45 de pura procrastinação estúpida pela falta de tempo perdido. Vou colocar tudo no twitter e dizer que a classemédiasofre.


Quando 16h45 chegar, já sabe, dá uma autistada e finja ser 15h45. Vamos ver no que vai dar.

Da frequencia das verdades

as vezes fico pensando no significado da palavra terrorismo. o que poderia ser classificado como. para muitos ocidentais americanos, essa expressão é utilizada para se referir a pessoas que provocam ações de dano físico a outras. mas, no entanto, para mim a palavra ganha mais força no campo da moral. 

estar sobre pressão é uma realidade contemporanea. será? será verdade que para ser bem sucedido a pessoa TEM de passar por certo tipo de pressão? TERRORISMO. Terror. tá entendendo? Ter-ror. remete à pavor, pânico mesmo. medo de perder o emprego. pânico de ter a imagem (tão dificilmente construída) ruir, como em um castelo de cartaz. 

há algum tempo, mais especificamente na geração passada, as pessoas se submetiam a certos tipos de tortura psicológica no trabalho para não ter a imagem de "bom profissional" arranhada. conheço pessoas assim, que se permite ter um ambiente de trabalho sob pressão. muitas delas "gostam" dessa sensação. mas, será que isso, realmente, as torna melhor ou pior profissional?

não sei ao certo, mas o que posso notar é que esta geração (a minha, entre 25 a 30 anos) os profissionais caem no mercado para dinamizar esse processo saturado nas relações de trabalho. onde a qualidade é equivalente ao esforço vezes a competência da pessoa. contrário do pensamento anterior, onde, muitas vezes, o funcionário era massa de manobra de muitos "chefes" que nem tinham jeito para caciques.

hoje convivo em um mercado misto, onde o conflito de gerações é evidente. principalmente, por não saberem valorizar a agilidade versus produtividade dos jovens.

terrorismo, uma palavra que ganhou força com processos de assédio moral. uma palavra que não deve ser temida e sim combatida.  mas a pergunta final é: como?

Todas as vozes

Era pequena. Falava de mais. Eu disse demais mesmo! Uma menina alegre, que tinha cara de tédio e jeito de moleque. Por onde andava era a sensação. Vivia fazendo peripécias divertidas com qualquer pessoa que encontrasse. Mas, em toda a história, sempre aparece aquela frase sentenciada que muda o rumo dos acontecimentos. E com a Pequena não foi diferente.

Estava calor e era verão. Não que o verão tenha algum efeito sobre o calor, e que o calor faça a estação mudar para o verão... Não é sobre isso. É sobre aquilo que aconteceu com ela. Voltavam da praia, Pequena devia ter uns... nove anos, acho. O sol estava lá no centro. Pequena parou no meio da travessia. O pai ficou um pouco assustado, afinal Pequena era sapeca e não parava nun-ca. Então resolveu perguntar.

"- o que foi minha querida?"

Não houve resposta. A menina que adora falar estava quieta. Como se dormisse acordada. Poucos segundos se passaram e logo Pequena volta a realidade.

"- Nada, não."

A mulher Adulta estava assistindo uma aula provocativa. As pessoas achavam estranho aquela mulher com um olhar tão irriquieto, tão transformador e nada comunicativo. A mulher era calada, quase muda. Só abria a boca quando era necessário. Ok, as vezes ela se fazia presente através de seus gestos e movimentos que, na maioria do tempo, eram de reprovação. Costumava encarar a tudo e a todos com certa seriedade. Mas seria sincero?

Adulta não tinha filhos. Não namorava. Não se divertia. Passava a maior parte de seu tempo resmungando. Chateada com o trabalho que encontrou. Com a casa onde morava. Com a família que tinha. Tinha tanto o que falar, mas nunca encontrava alguém para se abrir. Era uma porta sem chaves.

Certo dia, crente que abafava, criou uma situação constrangedora. Estava na aula provocante, quando seu professor contava um causo. Estranho, mas acho que isso é muito parecido com o que ela representava. O causo era o seguinte: o professor disse que conhecia uma pessoa que o incomodava. Sempre tentava fazer com que a pessoa correspondesse de forma mais expressiva seus comentários. Certa vez, resolveu observá-lo. E então chegou a conclusão que este era o jeito de ser dela.

A mulher não gostou. Achou mais que provocativa a aula. Então lembrou-se de Pequena e do dia em que viu o sol. As pessoas viviam reclamando que ela não se calava. E numa dessas, pequena resolveu guardar todas as perguntas, todos os pensamentos, todas as virgulas só para ela. Nesse dia, perdeu sua voz interior. Do outro lado ficou só a falta de expressividade. Ou seja, ficou... entediante.

No arfã de recuperar o tempo perdido, adulta resolveu voltar a falar. Foi como se estivesse enferrujada. A voz demorou pra sair. Lenta, grosseira, suja de catarro. (posso falar catarro aqui?). As pessoas deixaram de reconhecer o tédio em suas ações. E passaram a enjoar-se. Falar de mais cansa. Cansa tão quanto ficar calado.

Então, como todo o final de estória, Adulta e Pequena aprenderam a lição. Ou parte dela... Talvez, nem tenham aprendido nada e eu que sou esperançosa demais, de mais, para pensar positivamente. Mas aconteceu... perdemos todos. Da voz, fico-se o fio. E não houveram mais manhã para se cantar.

Rebobinei

Volto para dois dias atrás. Em frente a 308 sul. Faltava um filme, fui no GB e pronto. Eram nove reais, mas acabei pagando oito. Coloquei, fechei a porta e fez-se o início. A máquina era pesada. Nem lembrava disso. Mero detalhe.

Caminhei rumo as flores roxas e claras. Apontei e... Pera, tem uma mulher passando. Espero, olho para o lado e volto a apontar. Está prestes a disparar, quando uma nova interrupção acontece. Acho que é o nervosismo.

Há quanto tempo mesmo que não faço isso? Nem lembro. Garanto que tem mais de ano. Mas... O que isso importa agora? Olho novamente para a àrvore com as flores roxas e claras. O sol das 17h é propício para este claro e escuro. Meço a luz no escuro e no claro. Um deu oito e o outro deu seis ponto sete. Opto pelo oito.

Velocidade? Checada. Obturador? Checado. Pronto! Agora é só disparar... "Ei ei"
"ãh?" - Olho para os lados e não vejo nada. Bom, acho que não é comigo. "Ei, ei!".
Olho de novo, mas agora o rumo foi parar na comercial. "Ei, moça fotógrafa! Tira da gente?"

Uma risada (destas que a gente aprende com a nossa mãe), percorre o lugar. Mas deixa, era só uma gracinha. Aponto novamente o equipamento para a arvore. Um, dois, três, quatro cliques depois nem mais me lembrava daquele dedo tremulo que sentia saudade. Tanto tempo e ainda sei fazer. Acho.

Espera pra ver o resultado. Com o filme rebobinado e um medinho não conseguir ter fotometrado direito. Tem importancia não. Domingo tem mais sessão de fotos.

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update: Ficaram boas. As imagens, é claro. Mas depois eu mostro... talvez.

Como a brisa do mar

Marina era perfumada. Cheia de cheiro e dengo. Estava saindo da perfumaria, sua loja predileta. Ia comprar um kit de natal, daqueles que vem perfume, emulsão e sabonete. Não era pra ela, mas enfim. Teve de ir, e foi. Tudo deu 123 reais e sessenta centavos. Barato até para um kit. E o cheiro era bom.

A moça era viciada em cheiros. De planta, de chá pronto na mesa. Cheiro do café preto de manhãzinha. O da chuva quando vem e molha a terra. E o das pessoas. Gosta tanto de sentí-las. Um cheiro manso, aquele que não é forte e nem fraco. Um mais ou menos que mexe com os sentidos. Fazem os pés flutuarem e os olhos irem em encontro aos céus. Uma mania que chega a ser perseguição.

Saía da loja, estava com os olhos no chão. Distraídamente, tentando não tropeçar nos pés tortos. Aí veio um pneu. Em seguida o barulho. Capoft. Não deu para entender o que estava acontecendo. Veio uma vermelhidão. Um bate-bate que gritava no peito que quase fez Marina morrer. É melhor se conter.

Roberto, era roberto por causa do cantor. A mãe adorava cantarolar O broto do Jacaré, quando trocava a suas fraudas. O primeiro grande presente de natal que recebeu na vida, aconteceu quando o menino tinha treze anos. Mas porque treze? Nem a mãe dele sabia responder. Na caixa tinha roda, guidon, aro e marcha. Era só desempacotar e montar. E iria dar um trabalhão.

A mãe de Roberto não tinha muito dinheiro. Preferiu deixar o filho sem presentes durante três natais e aniversários para economizar. Queria agradar o filho que tanto a ajudava. E o presente também poderia ser usado para as entregas da banca de revista da família. Foi assim que há quase nove anos Roberto ganhou sua primeira bicicleta. E única também.

Já era meio tarde, quando Roberto saiu da banca para a última entrega do dia. Dona Mercedes queria a sua revista de fofoca o mais rápido possível, para por as quentinhas em dia com as colegas de manicure. O rapaz não pensou duas vezes, quando a velha senhora lhe entregou a gorjeta e dois beijinhos no rosto. Ele a achava feioza e horrenda, mas era a única que pagava gorjetas. E saísse correndo, daria tempo de uma partida no fliperama antes da mãe se dar conta da falta do menino.

E correndo foi Roberto, pelas ruas calmas de Sobradinho. O dia estava calmo, com uma intensidade pairando no ar. Mas... Cuidado! Ao subir na calçada, nem viu que estava muito perto de uma moça. A tal, estava distraída em devaneios. Nem deu tempo de frear. Danou-se. Um acidente de transito em plena calçada. Mas nem foi nada.

Segundos se passaram entre o rápido olhar que ambos ofereceram. Raíva, consternação, chateação ou algo parecido. Tudo se dissipou e a neblina limpou o céu, que começou a brilhar azul, azulinho. Era primavera. O cheiro era mágico. A brisa, como uma menina atrevida, percorreu o corpo de um para o outro. Marina o sentiu. Foram só sete segundos. Deu para Roberto contar cada um deles. E... acabou.

A encruzilhada se desfez. Cada um seguiu seu caminho. Ela, em direção a casa, e ele para a banca. Já não dava tempo de jogar mais. Mas pelo visto os pensamentos dele já não estavam mais aí para jogos... Estavam para a moça dos cheiros. E que nem sabia se chamar Marina.

No balanço do trem, um tal de vai e vem

7:28 am, manhã de terça-feira. Mês? Novembro. Ano: 2007. O corre-corre começa na escada. Anísio tem setenta anos e apronta-se bem mais rápido que um jovem de vinte. Tenta se barbear bem (em vão) e lavar-se o mais depressa possível. Talvez dê tempo. Talvez.
O despertador toca desde às seis e meia, mas Patrícia está atrasada novamente. De dez em dez minutinhos se deixa levar pelos cobertores e travesseiros sem se preocupar precocemente com o horário. Sua mãe se pergunta toda manhã, "Será que vai dar tempo?" Vai sim.
Charles é bem organizado. Levanta junto com as galinhas que a mãe cria no quintal de casa, na Samambaia Sul. Tudo para dar tempo de se organizar metódicamente para o escritório no Ministério do Planejamento. Ele é mais um entre tantas mesas e dezenas de pápeis. Às seis e quinze já está barbeado, o terno passado e o sapato tão lustrado que parece mais um espelho no pé. Tudo bem. Sempre chega na estação do metrô às sete e dez.

Ao toque do sinal, semi-acordados, sonâmbulos, trabalhadores do dia inteiro se preparam para a disputa acirrada por um lugar para sentar-se. E muitas vezes nem dá tempo de pegar um espaço em pé.

Tâmara sai correndo ao escutar o toque. Em sua mente os pensamentos voam como folhas secas no outono. Atravessa as escadas de um pulo só, passa pelo guichê e chega ao segundo andar de escadas. A porta ainda está aberta. "Será que eles esperam?" Aaah, sim. Antes do último toque, onde as portas se fecham, Tâmara já está dentro do vagão, sorrindo feito boba por ter conseguido finalizar a sua façanha. Bem, é um começo.

A cada estação, o número de pessoas aumenta exponencialmente. Os vagões ficam cada vez mais apertados. Sem espaço para olhar pela janela, enquanto os trinta minutos de viagem não passam, as pessoas buscam alternativas para não ter de olhar umas para as outras. Afinal, tem outro lugar para olhar? O constrangimento eleva-se em proporções ainda não explicadas. Charles, com auto-controle e domínio de si, se mantem absorto a isso. Mario Prata o mantém na linha com as crônicas do dia a dia. "Meu primeiro livro de crônicas será como este!" O engravatado quer ser escritor. E nem se espanta ao olhar para o lado esquerdo. Mas Tâmara sim! Lá tem um problema 'visualístico'.
Patrícia ainda mora com a mãe na nove do Guará I. Já passou dos trinta, mas ainda não aprendeu a se manter. O gosto para roupas é sinal, além de ser um 'pouco' duvidoso. Ela trabalhar o dia inteiro e estuda num cursinho pra concursos a noite. Não dá tempo para pensar em firulas, roupas e acessórios. Mas... Saia preta com godê longa, blusa de crochê com gola roxa, bolsa marrom e sandália branca rasteirinha não é considerado um figurino adequado para o trabalho.

"Ainda bem que existem uniformes!" Pensa rapidamente Tâmara (a observadora do trem!), rindo e olhando de relance para a janela. "Tem tanta gente aqui..." Um homem jovem, mulato e com uma cicatriz enorme do canto esquerdo da boca até as bochechas. "Será que foi por acidente, ou ele trabalha como assaltante de aluguel?" Um menino, que não deve ter nem treze anos, escorado na porta e escutando música no aparelho digital. "Nossa, já é tão popular assim ter um mp3, credo..."

Mas não tem tanto tempo assim para pensar. Sentado no assento destinado aos idosos, Anísio faz as contas de quanto vai receber. Trezentos reais não faz mais parte de sua realidade financeira. Os descontos com o financiamento que fez para o termino da construção já levam mais da metade da aposentadoria por tempo de serviço. Olhando para o teto, o senhor deixa a mente seguir com o balanço do trem. Nada muito abrubto. Um balançar que chega a ser até suave. Um vai e vem que embala. Leva alunos à escola, trabalhadores ao trabalho e uma pessoa e outra a seu destino.

O toque é dado. Chega a última estação: a Central. Todos os passageiros são convidados a descer pelo gentil condutor. Uns vão para seus destinos, logo ali, no centro da cidade cinza. Enquanto outros pulam correndo as escadas do metrô em direção as escadas da Rodoviária. Sobe uma plataforma, percorre o corredor abarrotado de tantas outras 'gentes'. "Ainda dá tempo de pegar o ônibus..." Será que dá?

Não mesmo, quer saber?

Não, você não sabe como me sinto. Nem ao menos perguntei se você se importava. Estou viva. Isto é fato. Me encontro em estado de constância apreciação da vida terrena e seus prazeres. Isto é óbvio. Mas quer mesmo saber o que me impulsiona a continuar a caminhada? Tênis.

Sim, aqueles com sola de borracha e mola amortecedora de impactos. Além de confortáveis, proporcionam momentos de prazer e deleite incríveis quando resolvo tirá-los do meus pés. Minha marca predileta é allstar converse. Como a maioria daqueles que sofrem da mesma idade que eu. Não sou tão jovenzinha assim como falam. Também não passei dos trinta. Tô na fase intermediária. A mesma que muitos (bem-aventurados) estão, e que se vangloriam tanto a ponto de espancar pessoas em paradas de ônibus. Disso eu não gosto.

Mas tem muitas outras coisas a mais no universo que me incomodam. Uma delas é a combinação do calor plus (vulgo +) falta de sorvete de brigadeiro. E eu adoooro brigadeiro. Um dos pecados que me fazem lembrar do simples fato de estar viva. Aí eu volto pro início. Sabe como é, né? Respirar, não sentir dor, caminhar tranquila, dirigir meu carro sem problemas aleatórios e de causa acidentalística.

Sim, sobrevivi a um deles. E sim, eu gosto de inventar palavras. Mas não vem ao caso. Desta vez, aquele 'acaso', bem maltratado pelo tempo e desgastado pelo próprio significado, não conseguiu me pegar de jeito. Nem a mim, nem a ela. Acho que isso vai nos fortalecer. Sei não.

Também me pergunto se isso é um bom sinal providencial e divino sobre como eu devo me portar (ou melhor dizendo: me comportar) diante as vicissitudes da eternidade de uma vida só (grande não?). Já que a franquia do carro passou dos três zeros antes da vírgula. Porém, como tudo na vida (e hoje estou falando muito dela), me proporcionou uma nova maneira de ver e sentir o tal do 'viver e aprender'. Ou talvez, de não perceber como influencio diretamente na minha saúde mental e física.

Vamos aos exemplos práticos e rápidos: aprendi que quando uma pessoa me pede um favor eu devo pensar quinze vezes antes de dizer sim. Independente se é apenas para passar uma fase do Mário Forever ou levar um objeto de um lugar a outro sem acidentes. Pode ser perigoso para os pedestres e motoristas de plantão.

E por falar em acidente, acabo de me recordar que além de causá-los a torto e a direito, eu também sou fruto de um. Ou talvez não, mas não discutirei religião aqui. Afinal, não durmo direito tem mais de quatro dias. Minha ansiedade ainda me acompanha. E inventei de ler cinco livros de uma vez! Se é que isso, ou o resto de tamanha insignificância, importa para você.

Enfim... Esta , além de ser uma das palavras que mais gosto, soa bastante agradável em qualquer frase. Se bem que não é utilizada da forma correta. Mas confesso que não compactuo deste crime sozinha! Tanto eu quanto o resto dos brasilienses universitários a usam. Mas... quem se importa. Nem ao menos me perguntaram se conheço a forma correta de utilização das reticências!

Ninguém perguntou nada mesmo. Nem se aquele acidente de verdade, envolvendo terceiros, quartos e quintos me fez acordar de vez para a realidade da terra dos Homens adultos e Racionais ou me fez adormecer de vez no Planeta das Amoras Estelares.

Quer mesmo saber? Eu gosto de amoras. E já é tarde para uma moça da minha idade ficar acordada. Passar bem e tenha uma boa noite.

Invisíveis somos nós

Turmas de Elementos de Realidade Regional organizam exibição e debate sobre o filme O Homem Invisível de Andréa Velloso


Foram dois dias do mês de abril. Duas exibições no mesmo auditório, o do bloco K da Universidade Católica, uma de manhã e outra a noite, mas que mexeram com o conceito do nosso papel na comunidade. Mexeram? Sim, e pretendo apresentar o porquê. Fui convidada para a primeira sessão, a de terça de manhã. Já havia assistido ao filme, acompanhado na mídia as matérias sobre o livro de Fernando Braga – que inspirou o filme -, debatido com colegas sobre como passamos despercebidos por uns, enquanto outros nos percebem. Mas confesso que assistir novamente, desta vez como convidada, foi uma experiência nova.

Resultado: me empolguei tanto que resolvi aparecer na segunda exibição, para preencher as cadeiras que poderiam estar vazias. Mas, felizmente, não estavam. No curso de comunicação, durante estes últimos quatro anos de estudante, vi pouca gente se mobilizar para assistir um filme do Cine Br, ou ainda para participar de debates sobre uma ou outra disciplina sem necessariamente estar correndo atrás de faltas ou pontos extras dos professores. Este ano de 2007 tem me assustado por isso. Muita gente começou a ‘aparecer’, sair do anonimato dos corredores e ser um atuante no curso que escolheu e na vida que pretende levar como comunicador.

Talvez seja por isso que a reação depois do filme se tornou marcante. Era evidente nos rostos de cada pessoa, a transformação obtida através da análise que aquela rotina apresentou. No filme, dona Irene, seu Nilce, Fernando e dona Maria não atuaram como personagens, foram entrelaçados em nossas vidas. Ali na tela grande, eles foram percebidos. Não eram apenas garis, mas pessoas dividindo com câmeras um dia de trabalho, os preconceitos da profissão, além de um pouco de si mesmos, como num divã. Só que, desta vez, o médico está representado nos milhares de espectadores.
O convite dos alunos foi dirigido a quem estava por perto, mas que por uma razão ou outra não é devidamente notado. Na primeira sessão os alunos se esmeraram convidando muitos funcionários da limpeza, que provavelmente, nem eles haviam percebido que tinham um nome e história. Esta última muito bem relatada pelo tão querido “tio da pipoca”, que compartilhou sua experiência de ter uma alcunha, mas de poucos saberem o nome. Parentes e pessoas próximas também estavam lá, como a Sueli, pedagoga e secretária do curso, que presenciou a entrada e saída de diversos alunos. Tantos invisíveis que não poderiam caber em uma lista. Pessoas que preferiram serem 'sem nomes', enquanto outros muitos buscam o próprio lugar.

A partir de hoje, talvez, muitos dos que assistiram ao filme O Homem Invisível poderão olhar para o colega da sala de aula que nunca atreveram a perguntar o nome, e sorrir. Verão que a “tia” que faz a limpeza no corredor do CRTV no turno vespertino se chama Sônia. Saberão que Liberato é o nome do tio da pipoca, e que talvez o nome da professora de Elementos de Realidade Regional e Brasileira, disciplina do quarto periodo do curso de comunicação da Católica, que passou um semestre inteiro a ensinar e mostrar novos caminhos do cotidiano se chama Ivany. Veremos.